Moi non plus

janeiro 24, 2010

O primeiro (e único) choque que tive ao ver "Gainsbourg (vie héroique)" de Joan Sfarr, tirando o título estúpido entre parênteses, foi a quantidade de público no cinema. Os franceses dificilmente saem de casa para ir ver um filme francês, ainda mais no fim de mundo onde eu vivo. A sala estava cheia (e considerando que era domingo de tarde e que o filme dura duas horas e meia) e a faixa etaria era impressionantemente jovem.

Guardando as devidas proporções, Serge Gainsbourg foi para a França nos anos 60/70/80 o que o Nelson Rodrigues foi para o Brasil nos 40/50: um feio tarado. Ambos falavam de sexo de maneira crua e sobretudo, os dois provocavam. Provocavam muito.... E nao eram anjos.

Antes de começar o massacre, vou logo falando: o filme é bom sim. Vale a pensa ser visto. Mas nao é uma narratival biográfica revolucionária pela linguagem poético-musical... É apenas mais um filme pretensioso que mistura diversas mídias mas acaba sendo mais uma cinebiografia.

A fotografia, a iluminação e o desempenho dos atores é excelente. O tal do Eric Elmosnino está realmente idêntico... O cenário e a reconstituição das diversas epocas é super bem cuidado. E a música concentra-se nos maiores hits de Serge Gainsbourg e de suas diversas musas. Então, alguns podem pensar: trata-se de um filme mais ou menos como "La Môme".... Nao, não é bem assim.

Há momentos hilários, como a apresentação de uma France Gall meio tonta, meio estúpida (e segundo a própria, era mesmo). Agora a história em si peca pois não decola, fica no meio do caminho: o diretor havia dito que não teria nenhum compromisso com a verdade histórica. E ao mesmo tempo, so as verdades históricas que permeiam todo o filme: a ocupação alemã, o inicio com Boris Vian (representado pelo fantástico Phillippe Katerine), a mulherada, o alcóol.... E que chatice: desde criança o personagem é perseguido pelo seu futuro alter ego Gainsbarre... Não precisva disso, o filme demora a decolar, mesmo com a participação do pessoal do Dyonisos como banda de fundo.

O fato de ser provocador, de ter se tornado um ícone nos anos 60 e de ter feito parte das diversas mudanças durante o final dos anos sessenta é deixado absolutamente de lado. A provocação só é vista no final do filme, e mesmo aí o cantor é descrito como alguém quase inocente: ora, ele era um provocador, sabia muito bem onde estava se metendo - a cena em que ele chora ao ler uma crítica na qual ele é descrito como um anti-semita é ridícula.

O filme acaba com o diretor se justificando textualmente, o que tambem era totalmente desnecessário: novamente, o diretor diz que não tinha compromisso com a verdade sobre Gainsbourg, mas sim com a mentira. Convenhamos: todos nos vimos Inglorious Basterds e ninguem viu o Tarantino dizendo que a obra era ficção. Além disso, o proprio Gainsbourg, enquanto diretor, nunca justificou nada a ninguém. Falha terrível...

O diretor, habitualmente conhecido por um extenso e primoroso trabalho com quadrinhos, erra ao achar que as transposições de mídia e os diálogos são possíveis sempre. Nao são.

No Brasil, havia aquela classificação do bonequinho, sentado, levantando e de pé, aplaudindo. O bonequinho não vai se levantar. Et moi non plus.

Posts relacionados

3 comentários